PERIFERIA CENTRO

Maurício Munhoz Ferraz[1]

Matheus Antunio Canhete[2]


[1]             Secretário adjunto de gestão e planejamento metropolitano, na Secretaria de Infraestrutura do Governo de Mato Grosso.

[2]             Graduando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Mato Grosso (FE/UFMT) e estagiário na secretaria adjunta de gestão e planejamento metropolitano.

Resumo

As hipóteses de Raúl Prebisch sobre a dependência da periferia para com o centro aparentam se inverter no estado de Mato Grosso, onde os municípios do interior, produtores de grãos, como a soja, possuem indicadores econômicos e sociais mais favoráveis do que os da região metropolitana. O trabalho apresenta essas desigualdades entre os municípios produtores de soja e entre os produtores de soja da primeira geração com a região metropolitana, através do Índice de Crescimento Sustentável dos Municípios (ICSM) onde surgem as evidências de que a região central passa a depender da periferia.

Abstract

The Raúl Prebisch hypothesis that the periphery depends on the economy of the center seems to be inverted in the state of Mato Grosso which the inland soy producers’ municipalities have a better perform relative to its economic and social indicators than the metropolitan area. This works presents these inequalities through the indicator ICSM ( Index of municipalities Sustainable growth   ) where is possible to see evidences that the center area depends on the periphery economy.

Palavras chave: Mato Grosso. Desenvolvimento. Indicador. Centro-periferia.

Key words: Mato Grosso. Development. Indicator. Centre-periphery.

INTRODUÇÃO

O economista argentino Raúl Prebisch criou a ideia de Centro-Periferia, a princípio para destacar Buenos Aires das demais cidades argentinas. A partir disso, ele influenciou uma geração de pensadores latino americanos, dentre eles o brasileiro Celso Furtado, na percepção de que existe uma relação mundial de países mais fortes que outros, e isso cria uma situação de dominação e dependência (Prebisch, 2000; Furtado, 2007).

A Cepal, comissão econômica para a América Latina e Caribe, organismo da ONU, foi um campo para difusão desse modo de pensar o mundo, aliás um modo frequentemente discordado pelos norte-americanos, especialmente da escola de Chicago.

Se retomarmos a ideia original de Prebisch, onde o centro é a capital e as demais cidades a periferia, modelo de muito clara percepção, e nos voltarmos para a compreensão do estado do Mato Grosso, perceberemos algo próximo a uma inversão, isso se levarmos em consideração o índice de Crescimento Sustentável dos Municípios, o ICSM.

METODOLOGIA

As comparações realizadas adiante vão levar em conta o ICSM. O índice é construído a partir de variáveis e indicadores sociais, econômicos e ambientais, sendo uma ferramenta útil para elaboração e acompanhamento de políticas públicas. Ele foi criado como uma alternativa ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que por só ser atualizado a cada decênio e não agregar nenhum indicador ambiental ao índice se torna um instrumento defasado na análise das políticas públicas. O ICSM é calculado com valores que variam de 1 a 5 dependendo da avaliação qualitativa da variável ou índice, no ICSM são avaliadas 8 variáveis sendo elas:

  1. PIB per capita
  2. Porcentagem de famílias que recebem o bolsa família
  3. Salário médio
  4. Participação do serviço público no PIB
  5. Índice de educação do ensino básico
  6. Mortalidade infantil
  7. Focos de calor
  8. Área de floresta por km²

Cada uma tem o mesmo peso, 1 , dentro do índice e a partir delas são feitas as avaliações qualitativas que variam de 1 sendo péssimo e 5 sendo ótimo. Por exemplo se a porcentagem de dependência das famílias em um município é maior que 20% então essa variável recebe um valor 1 (péssimo) e assim sucessivamente para todas as outras variáveis.

DIFERENÇAS REGIONAIS

Em termos socioeconômicos, o ICSM aponta que alguns municípios de Mato Grosso têm a supremacia, como são os municípios que compõe o grupo chamado de “primeira geração da soja”, que foram os primeiros municípios produtores em Mato Grosso com a chegada de migrantes, principalmente do sul do Brasil, em busca de terras para produção do grão.

Fazem parte dessa primeira geração os municípios de Nova Maringá, Ipiranga do Norte, Paranatinga, Campos de Júlio, Diamantino, Campo Verde, Sapezal, Campo Novo do Parecis, Nova Mutum, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Rondonópolis.

Como mostrado acima, esses municípios eram treze na primeira geração e na geração que os sucedeu (chamada sem surpresas de nova geração dos produtores de soja) se juntaram mais noventa e cinco. Diferentemente da primeira, a nova geração não apresenta indicadores de desenvolvimento tão elevados, como medido pelo ICSM. Enquanto na primeira geração se tem um ICSM médio[1] de 31, considerada então uma economia prospera, na nova geração se tem um ICSM médio de 25, o que classifica a economia da região como moderada.

Esses municípios (da primeira geração) apresentam um desenvolvimento, como explorado na teoria do crescimento regional de Douglass North e seus trabalhos de 1955 e 1959 (North, 1977a; 1977b), liderado pela produção de bens agrícolas para exportação sem a necessidade de uma industrialização a priori. A exportação dos bens agrícolas seria uma condição necessária, mas não suficiente para o desenvolvimento de uma região. A atividade exportadora geraria empreendimentos voltados a atender essa atividade exportadora, bancos de crédito especializados, indústrias e setor de serviços como argumenta North: “Mais ainda, à medida que a população e a renda de uma região crescem, seu mercado regional se torna grande o bastante para tornar factível produzir, no local, alguns bens e serviços que eram anteriormente importados” (North, 1977a), logo a participação da atividade econômica passaria a ser distribuída entre os setores da economia como é observado em muitos desses municípios da primeira geração[2] e também pelo ICSM (figura 1).

Figura 1 – ICSM no estado de MT[3]

Elaboração dos autores com dados da Secretaria Adjunta de Gestão e Planejamento Metropolitano – SAGPM (2019).

Nos municípios da primeira geração, a participação da agropecuária no PIB representa em média 34%, enquanto serviços é o setor que mais contribui para a renda dessas regiões, com uma participação de 39% e a indústria e setor público com 17% e 10%, respectivamente.

Nos municípios da nova geração, no entanto a situação é diferente: a agropecuária ainda é o setor com maior parcela do PIB com 38%, seguido por serviços (27%) e setor público (24%) e a indústria (11%). Um cenário de dependência da atividade agropecuária e do setor público maior do que a primeira geração.

As distinções entre as duas regiões no âmbito econômico também se fazem visíveis quando observados o PIB per capita dos municípios de cada uma delas (figura 2), dos municípios da primeira geração apenas um não tem um PIB per capita caracterizado como ótimo, que é o município de Paranatinga, enquanto na nova geração se tem três municípios com PIB per capita considerado péssimo.

Figura 2 – PIB per capita dos municípios produtores de soja

Fonte: IBGE (2016).

Assim como na figura 2 a figura 3 ilustra as comparações de ICSM dos municípios, mas agora apenas com os produtores de soja. A nova geração tem todos os sete municípios do estado com o pior ICSM, aqueles considerados estagnados, dentre eles Luciara, o pior ICSM do estado. Enquanto na primeira geração, onze dos vinte e um municípios considerados prósperos em MT fazem parte dela.

Figura 3 – ICSM dos municípios produtores de soja

Elaboração a partir de SAGPM (2019).

Olhando para a situação social das regiões se notam diferenças claras, com a nova geração sendo mais dependente dos serviços públicos (como mostrado anteriormente na contribuição desse para o PIB da região) e do programa de auxílio do governo “bolsa família”, enquanto na primeira geração a dependência desse programa é, em média, pouco mais de 10% na nova geração esse número ultrapassa 20% das famílias (figura 4).

Figura 4 – Média da porcentagem de famílias dependentes do bolsa família

Fonte: Ministério da Cidadania (2019).

Postas as diferenças, fica claro que uma região se desenvolveu mais efetivamente que a outra, deixando uma grande desigualdade entre os que começaram com a produção e os mais recentes atraídos pós essa entrada.

Se voltarmos os olhos para uma região notadamente não produtora de grãos, a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (RMVRC) que é composta por seis municípios: Acorizal, Chapada dos Guimarães, Cuiabá, Nossa Senhora do Livramento, Santo Antônio do Leverger e Várzea Grande, e que concentra mais de um quarto da população do estado e um quarto do PIB, sendo assim uma região central para a economia mato-grossense, a diferença com os municípios da primeira geração fica ainda mais gritante.

O ICSM médio da primeira geração como apresentado anteriormente é de uma região próspera, bem desenvolvida, enquanto na região metropolitana esse índice é 26 a caracterizando como uma região dinâmica, porém se desconsiderada a capital Cuiabá o índice passa a ser 23, de uma região moderada (mostrando assim uma concentração e desigualdade dentro da própria região metropolitana).

Em relação ao PIB, a primeira geração apresenta um PIB de R$ 38,3 bilhões e a RMVRC R$ 30,9 bilhões, sendo assim a primeira geração tem um PIB 24% maior, essa diferença se observa também quando olhamos para o PIB per capita, o da primeira geração é 190% maior, com valor de R$ 74,3 mil contra R$ 25,6 mil da RMVRC. Além disso a contribuição para PIB entre os municípios da primeira geração é mais bem distribuída do que na RMVRC, enquanto na primeira geração o município que mais contribui ao PIB, Rondonópolis, representa 24,5% do total da região, na RMVRC, Cuiabá o município que mais contribui ao PIB representa 71,7% do total da região.  

O serviço público no PIB também é maior na RMVRC, representando em média 26% do PIB da região, enquanto na primeira geração esse valor é de apenas 10% como apresentado anteriormente.                                                                                                                            

A RMVRC apresenta ainda uma grande dependência do programa bolsa família dentre eles o município mais dependente de todo o estado, Acorizal, com 51% das famílias recebendo esse auxílio governamental (figura 5), demonstrando a fragilidade social da região apesar da centralidade econômica.

Figura 5 – porcentagem famílias dependentes, RMVRC

Fonte: Ministério da Cidadania (2019).

Já nos municípios da primeira geração a dependência do programa é baixa, ultrapassando os 15% apenas no município de Campos de Júlio onde 25% das famílias recebem o auxílio (figura 6), mas mesmo com essa porcentagem alta se compara aos outros da primeira geração, na RMVRC o município seria só mais dependente que Cuiabá e Várzea Grande.

Outro número importante também difere na realidade das duas regiões, enquanto na RMVRC o IDEB é de 4,25 na primeira geração é de 5,02.

Figura 6 – porcentagem famílias dependentes, primeira geração

Fonte: Ministério da Cidadania (2019).

CONCLUSÃO

Por fim, a lógica Centro-Periferia aparenta se inverter em Mato Grosso, com o “interior”, especificamente a região produtora agrícola, tendo uma situação socioeconômica mais favorável em perspectiva estadual, sendo peça chave para a geração de renda no estado e fornecendo um ambiente onde essa renda se traduza em maior qualidade de vida para os seus habitantes. Apesar disso, essa dinâmica centrada na produção agrícola como primazia deixou a maioria dos seus municípios para trás, o que o ICSM demonstra claramente, quando olhamos a segunda geração dos municípios produtores de grãos com seus indicadores bastante distintos da primeira, com uma situação socioeconômica frágil, propagando uma realidade de desigualdade no estado entre os próprios produtores de soja. Essa inversão na lógica se estende para todo estado de Mato Grosso, logo, afeta também a região metropolitana, que passa, de certa forma, a também depender da renda gerada no interior, que não pode ser chamada de periferia, pela demanda produzida, e que afeta diretamente a economia da capital, que não se enquadra no que Prebisch chamou de centro. 

REFERÊNCIAS

FURTADO, Celso.  Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Produto interno bruto dos municípios. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9088-produto-interno-bruto-dos-municipios.html?>. Acesso em: 20 de out. 2019

MINISTERIO DA CIDADANIA. Vis Data. Bolsa Família. Brasília, 2019. Disponível em: <https://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/vis/data/data-table.php>. Acesso em: 20 de out. 2019.

NORTH, Douglass Cecil. Teoria da localização e crescimento econômico regional. In: Schwartzman, J. (Org.). Economia regional: textos escolhidos. Belo Horizonte: Cedeplar, 1977a.

NORTH, Douglass Cecil. A agricultura no crescimento econômico regional. In: Schwartzman, J. (Org.). Economia regional: textos escolhidos. Belo Horizonte: Cedeplar, 1977b.

PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento da América Latina e alguns de seus problemas principais. In: Bielsthowsky, Ricardo (org.). Cinquenta anos de pensamento na CEPAL. Rio de Janeiro: Record, 2000.


[1]                    calculado como a média ponderada do ICSM pela população dos municípios contidos na geração.

[2]                    WALENDORFF, Rafael. Grãos movem pujança econômica em MT. Valor Econômico, 18 de mar. de 2020. Dísponivel em: <https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2020/03/18/graos-movem-pujanca-economica-em-mt.ghtml>. Acesso em: 20 de mar. de 2020.

[3]                    Legenda: entre colchetes o intervalo analisado “de 15 a 20”, por exemplo. E entre parênteses o número de municípios que se encontram nesse intervalo

1 comentário em “PERIFERIA CENTRO”

  1. GIOVANNI BRAGAGLIA

    Parabéns pela comparação dos estudos, realmente fica evidente que as cidades que foram pioneiros em busca do empreendedorismo no setor agrícola e consequentemente na criação de novas empresas do comércio, serviço e indústria para sustentar todo esse arranjo produtivo local assim como as necessidades das famílias se destacam hoje em uma melhor qualidade de vida. Grandes cidades produtoras, pela quantidade de área, área produtora e canal de comercialização negociados a anos, valorização do dólar e aumento do consumo externa pela demanda de grãos e instalação de novas indústrias de transformação fez com que elas disparecem no seu crescimento do PIB.

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