A fuga dos nazistas

O livro “Rota de Fuga, a história não contada da SS” foi publicado pela editora portuguesa Chiado, em 2015, e está a venda em todas as lojas das livrarias Cultura, Martins Fontes e Travessa, além de estar na Amazon, em ebook e físico. Em 2019 a editora traduziu o livro para a língua inglesa.

Os diálogos iniciais do livro se passam na Munique da República de Weimar, nos quais os personagens fundamentais da trama, Andreas e Ernesto, compartilham também suas angústias próprias daquela contemporaneidade de retorno da Alemanha ao palco central das nações. Essa noção de cumplicidade e diálogo entre leitor e narrador é uma constante no livro, sempre a testar o limite ético. O uso de cenas diacrônicas e de quebras múltiplas de cenário fomentaram a primeira constatação do escritor e sua criação: trata-se de um autor brasileiro que se propôs, sobretudo, a escrever sobre angústias humanas universais, não importando que o gênero literário que tenha escolhido se pareça ao olhar desapercebido como mais um relato de guerra. Certa vez, Sérgio Paulo Rouanet teria dito que a intelligentsia brasileira estaria de fato liberta da sua pronvicianidade quando se libertasse da obrigação de falar apenas das questões nacionais e se arriscasse a debater temas universais com elementos completamente estranhos a sua realidade imediata. Este livro tem essa audácia de romper com enredos locais e se lançar a construir uma geografia e uma psicológica do nazismo a partir e apesar da percepção comum aos brasileiros, sem medo de lançar mão de um sofisticado arsenal de informações, de nomes e de lugares, de maneira quase obsessiva. Se é preciso reivindicar pontos altos para a narrativa,

O maior destaque é a construção da história como se fosse um único objeto, porém multidimensional até o último parágrafo. Um polígono, que se visto de longe é entendi- do como único, o papel da SS no contexto do Nazismo, mas quando olhado de perto e rotacionado, esse objeto mostra diversas faces. Hora se vê a psicologia do poder, ou do micro poder de Foucault; hora a geografia minuciosa dos passos dos personagens, de Hitler e dos Aliados; a narrativa da pequena história à moda francesa; a arqueologia de lugares que não existem mais; a cartografia minuciosa das cidades cenário. Enfim, é como se autor nos convidasse a fazer vôos de pássaro e, ao mesmo tempo, lobotomias dos pensamentos dos personagens.

O leitor, por um momento pode achar que esta diante de um enredo à moda de Gabriel Garcia Marquez, como em Cem Anos de Solidão, com tantos personagens que teria que assumir a estratégia de desenhar uma espécie de mapa mental para compreender a conexão entre todos eles. Mas não. Conselho ao leitor: não se apavore. A arqueologia dos personagens, fatos e lugares são um luxo do autor. Quem se interessar, deve pegar uma passagem até Munique, com um GPS na mão e percorrer os passos de Andreas, como em uma cartografia literária por trás de uma espécie de infográfico geral dos cenários da Guerra. Quem sabe agentes de turismo não farão um roteiro próprio de visitação aos “lugares” deste livro, como fizeram com livros de Kafka em Praga?

Os roteiristas de cinema e de séries de televisão terão em suas mãos um banquete de lugares, falas, intrigas, jogos de poder, espionagem e contra-espionagem, paixões, homossexualismo, luxurias e dramas humanos como o holocausto, todos elementos essenciais e dignos de qualquer bom thriller de base histórica. Alerto que este livro é uma bomba relógio ou de efeito retardado. Quem se apoderar dele, pode produzir novos impactos literários e novas leituras estéticas. Por trás de um texto híbrido, cuja fronteira entre o historiográfico e ficcional é desconhecida, à moda dos livros de Jostein Gardeer, subjaz um argumento central que é o conflito humano decorrente das ambivalências provocadas pela mistura entre humilhação e riqueza, pobreza e glória, segredo e história, ganância e cristianismo, poder e religião, política e ética. Com toda a complexa rationale humana exposta, em uma sequência de pequenos capítulos e sessões, como se fossem motetos de Bach – Curtos, complexos e com cromatismo próprio, o ser humano vai sendo decomposto e exposto a situações limite, que só uma guerra pode revelar de maneira escancarada. Nesse sentido, a escolha por uma história ficcional baseada em uma cartografia histórica provê a este livro uma verossimelhança capaz de confundir o leitor, não sabendo se está no campo da narrativa literária ou historiográfica. Esse efeito de prestidigitação causa no leitor um misto de agonia e tensão salutar à construção de momentos de epifania acerca dos enigmas da narrativa. Nesse mundo criado por Maurício, realidade, percepções e histórias, sejam as verídicas de acordo com o lado vencedor sejam as inventadas pelo autor, amalgamam-se em Rota de Fuga – A História não Contada da SS

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