Ex comunistas, ex gays, ex feministas. Quem são os novos conservadores

Ana Carolina Soares, Uol, Colaboração para o TAB

A ativista Sara Winter e o guru político Olavo de Carvalho, duas vozes megafônicas da nova direita brasileira, são apenas alguns exemplos de um fenômeno recorrente. Mesmo com biografias bem distintas, possuem um ponto em comum: cada um deles deu uma virada ideológica após um “abraço” na esquerda. São os novos conservadores. Winter é uma autoproclamada ex-feminista presa por atos antidemocráticos, e Olavo é autoproclamado ex-militante do Partido Comunista Brasileiro. Esse tipo de virada nem é tão inédita: o jornalista Paulo Francis (1930-1997), ex-trotskista, declarou-se conservador e ferrenho antipetista nos anos 1990.

Histórias assim não são incomuns, mas como é possível tamanha metamorfose? A história do funcionário público Jones, de 44 anos, ilustra bem essa virada de 180 graus. Com medo de ataque de haters e trabalhando em um cargo concursado, ele pede para não ter imagens suas publicadas aqui — nem declara seu sobrenome. A guinada à direita levou cerca de doze anos para acontecer na vida desse professor, que vive em Brasília. Filiado ao PT de 1998 a 2004, ele ainda guarda uma foto, em que está abraçado ao presidente Lula, tirada durante um comício de seu “ex-companheiro”. Na mesma pasta, armazenada em seu computador, coleciona diversas cenas de 2016 — ano em que, vestido com o uniforme verde e amarelo da CBF, marchou em frente ao Congresso Nacional em todas as passeatas que pediam o impeachment de Dilma Rousseff. Anonimamente, abriu em 2020 uma página no Instagram, a Ex-Esquerdista13, que estreou em março sob críticas. “Absurdo! Mangueira compara bandido morto com Jesus Cristo!”, postou, sobre o desfile da escola de samba carioca. “Bandido, não. Jovem preto e favelado. Mas pra você é a mesma coisa, né?”, responderam nos comentários.

Ex-petista, mas ainda militante

O funcionário público encara os preceitos religiosos como algo, em todos os sentidos, sagrado — afinal, fora batizado em igreja evangélica e criado em uma família frequentadora da Assembleia de Deus. “Mesmo quando abraçava os ideais esquerdistas, não aceitava a pressão em conversas como a legalização do aborto, a união homoafetiva, a liberação das drogas, o ateísmo, muito menos em usar a palavra de Deus em vão. A mídia sempre quis nos empurrar esse tipo de ideia nas notícias, nas novelas, nas rodas de conversa, mas nunca os aceitei, porque vão contra os ensinamentos bíblicos”, prega.

Como um conservador topou se filiar ao Partido dos Trabalhadores, partido que acabou aglutinando em torno de si uma série de movimentos identitários? Jones conta que, em 1998, encantou-se pelo discurso em prol da defesa dos direitos trabalhistas e da luta contra a desigualdade social adotados por sua chefe de trabalho. Até então, ele nunca havia prestado atenção à política. Jura que só se desfiliou em 2004 porque queria trabalhar como mesário na reeleição de Lula.

Mas a estrela petista começou a apagar para Jones em 2005, com o escândalo do mensalão. Ainda assim, ele ajudou a reeleger Lula e votou em Dilma Rousseff, nas duas eleições. “Foi a partir das manifestações de junho de 2013 que discursos que mobilizavam os temas da anticorrupção e do antipetismo, que já circulavam nos meios digitais desde o mensalão, passaram a se tornar centrais no processo de formação desse novo público”, diz ao TAB Camila Rocha, autora de “Menos Marx, Mais Mises: Uma Gênese da Nova Direita Brasileira”, tese de seu doutorado defendida na USP (Universidade de São Paulo), em 2018.

A cientista política também ressalta o impacto do avanço de pautas progressistas no Brasil diante de setores conservadores. “Entre 2011 e 2014, o Supremo Tribunal Federal aprovou, quase numa sequência, projetos como as cotas raciais, a Lei da Palmada, Comissão da Verdade, a PEC das Domésticas, a união civil de pessoas do mesmo sexo… Essas transformações tão impactantes em um curto espaço de tempo assustaram muita gente”, explica Rocha.

O conservadorismo sai do armário

De acordo com pesquisa do Monitor do Debate Político no Meio Digital, em outubro de 2019, 44% da população se declarava conservadora religiosa, 35% era punitivista laica (perfil mais difuso, que, ao mesmo tempo, defende leis mais severas contra criminosos mas pode ser liberal em outros temas, como o direito ao aborto), e só 21% possuía um perfil progressista. “E isso porque o estudo foi realizado na cidade de São Paulo. Em geral, metrópoles tendem a se posicionar mais à esquerda, e o interior, à direita”, diz ao TAB Pablo Ortellado, coordenador do órgão e professor do curso de políticas públicas da USP (Universidade de São Paulo).

De acordo com o acadêmico, os vídeos produzidos pelo filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho a partir de 2015 contribuíram para que inúmeros conservadores, então acuados com o avanço progressista, assumissem posição. “Em um momento em que ninguém se dizia de direita, ele atuou como um ‘cavaleiro solitário’ e convenceu muita gente”, observa o especialista. Jones foi um dos que se encantou por Olavo e, em 2013, adotou de vez o discurso da nova direita. “Você viu o documentário ‘Agenda’? Em 2015, assisti por recomendação do filósofo e aquilo abriu minha mente. Vai abrir a sua também”, aconselha.

O filme de 2010, do cineasta americano Curtis Bowers (membro do Partido Republicano), prega que as ideias progressistas — como a liberação do casamento homoafetivo, o fim do ensino religioso nas escolas, além dos movimentos feminista e pelos direitos civis — escondem um plano de membros do Partido Comunista para acabar com a família, promover o caos e consequentemente retomar o poder. “Percebi que sempre fui conservador. Só não havia encontrado uma voz que representasse meus ideais”, diz Jones. Em suas redes sociais, Olavo de Carvalho se proclama como o “parteiro da nova direita”. Com um discurso mirabolante, Carvalho acumula quase um milhão de seguidores em seu canal no YouTube e molda a ala ideológica do governo brasileiro. Mas ele não representa todas as facetas da nova direita. “Há décadas, sempre houve os defensores dos militares, os religiosos e os neoliberais. Afinal, o Brasil nunca fez uma transição completa entre ditadura e democracia, jamais refletiu nem passou a limpo a sua história, como fez a Argentina”, afirma Esther Solano, professora de Relações Internacionais na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em conversa com o TAB.

Espectros diferentes, opiniões parecidas De 2013 até hoje, esses grupos diversos e às vezes até antagônicos — como evangélicos e católicos — se uniram e alinharam um mesmo discurso defendido nos vídeos do guru, nas rodas de conversas da sociedade e no Congresso. São basicamente pautas com um viés moral, como o combate à corrupção, a criminalização do aborto, o fim das cotas raciais e a liberação do porte de armas. “O ‘pauloguedismo’ e suas ideias liberais, como privatizações, pegou carona nesse movimento”, diz Ortellado.

Apesar de opostos, adeptos da direita e da esquerda mal percebem que podem se encontrar em causas em comum. “Fizemos uma entrevista na última Marcha para Jesus e percebemos que o público, mesmo religioso-conservador, era a favor de direitos iguais para homens e mulheres, repudiavam o assédio e a grande maioria não discrimina os LGBTs. A diferença de suas ideias em relação aos progressistas é que eles se declaram contra os movimentos sociais, a chamada ‘baderna'”, conta o professor. Líder do Movimento de Ex-Gays do Brasil (MEGB), Miriam Fróes, 57 anos, encontrou-se em 2019 com a ministra Damares Alves, responsável pela pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e diz que , atualmente, se identifica com os ideais da direita. Nem sempre foi assim. Dos 13 aos 33 anos, manteve relações homoafetivas e integrava a luta LGBTQI+, frequentando movimentos organizados pela esquerda. Em 1996, tornou-se fiel em uma igreja evangélica, decidiu se tornar heterossexual e largar ex-companheiros. Até quase aceitou um pedido de noivado, conta. Solteira há 17 anos (“vivo em santidade e me casei com meu trabalho”), ela conta que a mudança ideológica e sexual ocorreu por causa da religião. “Não usamos o termo ‘cura gay’ porque não se trata de uma doença. Foi simplesmente uma decisão movida pela fé, para seguir os preceitos bíblicos. Nesse sentido, eu me declaro uma neoconservadora”, conta.

A estudante trans Luana Nogueira, de 19 anos, também viveu um vaivém ideológico, guiado por sua sexualidade. “Até 2015, eu era bolsonarista fanático, mais do que isso, um garoto cheio de preconceitos. Naquele ano, descobri que sou bissexual e naturalmente passei a frequentar o movimento LGBTQI+”, lembra. Durante dois anos, Luana passou a ler clássicos de Marx, mas também inscreveu-se no canal de Olavo de Carvalho. “Ninguém dos meus amigos da esquerda aceitava meus valores familiares, o fato de eu admirar um casamento como o dos meus pais, muito menos eu consumir obras do Olavo. Aí, descobri que ser gay não me leva automaticamente para a esquerda. Sou bi, sigo valores conservadores e não acredito mais que isso se trata de um paradoxo”, ela conclui. Em 2017, voltou de vez ao conservadorismo e criou um grupo no Facebook, o Gays de Direita.

O perfil de Luana destoa dos neoconservadores na internet. “A maioria dos internautas que consome política nessa rede social possui mais de 40 anos de idade”, diz ao TAB Márcio Moretto, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo e um dos coordenadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital. Segundo suas pesquisas, direita e esquerda possuem um mesmo tom “inflamado”, intolerante a ideias diversas — o tal discurso de ódio.

O futuro da polarização.

“Para mim, o retrato dessa nova direita é o João Revolta, do TV Revolta, canal do YouTube”, acredita Moretto. O influencer conservador estreou na internet em meados de 2010, reclamando contra situações corriqueiras do cotidiano: buracos nas ruas, ônibus saltitantes etc. Percebeu que ganhava audiência com política e, em 2015, mergulhou na campanha pró-Bolsonaro. “Em pesquisas, percebemos que a direita hoje domina o YouTube numa proporção de 7 para 5 em relação à esquerda. Figura como um dos principais meios de propaganda dessa ideologia”, afirma o acadêmico.

E qual seria o futuro desse fenômeno “Direita, volver”? No último ano, testemunhamos uma sequência de rupturas — e o “blocão” que levou conservadores ao poder se desmembrou. Nesse ringue, viu-se Bolsonaro versus diversos aliados que se tornaram adversários, como o PSL, a deputada federal Joice Hasselmann, o MBL, a deputada estadual Janaina Paschoal, o governador João Doria e, por último, Sérgio Moro, ex-juiz da Lava Jato e, há dois meses, ex-ministro da Justiça. “Na internet, não houve abalos. Apesar das rupturas, conservadores seguem firmes”, diz Moretto. Seu colega, o professor Pablo Ortellado, analisa que tanto direita quanto esquerda apresentam-se cada vez mais coesas e e homogêneas. “Difícil prever o futuro dessa polarização. Mas a migração de um polo para o outro, ou seja, ex-comunistas que se tornaram pró-militares, isso tende a diminuir ou acabar, por causa de uma consolidação de ideias, sem espaço para pensamentos independentes”, prevê. Trata-se, então, do fim do pêndulo ideológico.

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