Queimadas, uma variável econômica para cálculo de “vale a pena viver aqui”.

Dissertação aprovada na Universidade Federal de Mato Grosso, no último dia 21 de agosto, com o tema O AVANÇO DO AGRONEGÓCIO E O ÍNDICE DE CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL DOS MUNICÍPIOS, inclui desmatamento e queimadas como critérios de qualidade de vida.

Maurício Munhoz

O Agronegócio é, há mais de 20 anos, a principal força econômica de Mato Grosso. Isso elevou, significativamente, a importância econômica do Estado para o Brasil, especialmente na balança comercial do país. Mas será que esse modelo primário exportador enfraqueceu a agricultura familiar? E, com ele, melhorou a qualidade de vida do cidadão mato-grossense?

A dissertação de mestrado na UFMT de Maurício Munhoz busca responder essas perguntas, e outras, se utilizando de um indicador criado por ele, que amplia o horizonte do IDH, chamado de índice de Crescimento sustentável dos municípios, o ICSM. Enquanto o IDH é decenal, o ICSM é anual e também usa indicadores de saúde e educação, mas ao avaliar a renda ele vai além dos dados do PIB e diagnostica, com mais eficiência, a raiz da pobreza nos municípios. Fora isso, o ICSM tem um grande diferencial, que é a utilização de indicadores ambientais, como o desmatamento e as queimadas.

Com isso, o trabalho reflete sobre dimensões importantes para a nossa qualidade de vida, por exemplo, sobre o quanto as queimadas são ruins para o bem-estar do cidadão. É como se as queimadas fossem inseridas como uma variável econômica em um cálculo de “vale a pena viver aqui”.

O trabalho também analisa a complexidade da economia de Mato Grosso, a influências das tradings no modo de produção da agricultura e, principalmente, a influência no modelo tributário nacional e estadual no avanço do agronegócio.

Dentre as demonstrações da dissertação está o aumento nas áreas de lavouras temporárias, como a soja, e a diminuição de lavouras permanentes, típicas da agricultura familiar. Outro fato: a concentração fundiária na produção da Soja em Mato Grosso. Ao contrário de Estados como o Paraná e Rio Grande do Sul, e de países como os Estados Unidos, formado por pequenas propriedades, Mato Grosso produz em grandes latifúndios o que também tem como consequências a concentração da renda e a transformação da terra como valioso ativo, dentre outras.

Desigualdade social e regional, com Igualdade ambiental. Assim um leitor poderia definir Mato Grosso, pela ótica da dissertação de Maurício Munhoz.

Esse é o resumo do trabalho:

O objetivo do estudo é analisar os impactos do agronegócio sobre a vida da população mato-grossense a partir do Índice de Crescimento Sustentável dos Municípios (ICSM), tendo por variáveis: PIB per capita, Porcentagem de famílias que recebem o bolsa família, Salário médio, Participação do serviço público no PIB, Índice de educação do ensino básico, Mortalidade infantil, Focos de calor, Área de floresta por km².   O Censo Agropecuário de 2017 confirma a expansão das lavouras temporárias, a base do agronegócio, e o processo de acumulação de terras no Estado, o que está vinculado à facilidade tributária dada à agricultura em grande escala, como a total isenção de tributos sobre a venda dos produtos primários para exportação, segundo a Lei Kandir, e da baixa carga tributária interna aplicada sobre a produção de grãos e ao setor pecuário, pelo governo de Mato Grosso. Ao adotar o índice de crescimento sustentável dos municípios, ICSM, como ferramenta para analisar o impacto do avanço do agronegócio na qualidade de vida das pessoas, o estudo conclui que, apesar do agronegócio ser há mais de vinte anos o modelo econômico preponderante no Estado, os indicadores de renda, sociais e ambientais de seus municípios são ruins, mesmo que aqueles municípios grandes produtores de grãos contem com bons índices de renda. Em termos teóricos, a pesquisa seguirá a base de autores que discutem o processo de acumulação capitalista. Em termos metodológicos, trata-se de uma pesquisa qualitativa, com técnicas de abordagem quantitativa, tendo como recorte temporal o período de 2000 a 2020.

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